Pandemia faz empresas investirem mais na gestão de riscos de terceiros

RIO – Os impactos e incertezas da pandemia estão fazendo com que as empresas invistam cada vez mais na gestão de riscos de terceiros. Redução de custos, aumento de receitas e questões regulatórias estão entre algumas das principais razões. Muitas dessas empresas – em geral as de maior porte – investem em equipes próprias, enquanto outras vão ao mercado em busca de consultorias especializadas na área.

“Já existia uma preocupação, principalmente para atender algumas questões regulatórias, mas com certeza a pandemia acelerou esse processo”, diz Fabiana Mello, sócia da área de Risk Advisory da Deloitte. “No contexto da pandemia, o principal foi o risco de continuidade. Muitas empresas foram impactadas, e ter uma visão mais ampla, conhecer os riscos que essas relações trazem, ter um plano de ação, ajuda muito. Empresas que tinham isso mapeado previamente conseguiram reagir melhor à crise.”

A afirmação vem amparada em dados de um levantamento global feito pela Deloitte em 2020, que ouviu cerca de 1.200 executivos de 20 países, incluindo o Brasil. Redução de custos (55%), proteção e aumento da receita (53%), prevenção de incidentes de terceiros (43%), valorização da responsabilidade da empresa (36%) e atendimento de requisitos regulatórios (32%) foram as principais razões apontadas para se investir mais nesse tipo de gestão.

entre os entrevistados no País, 24% disseram ter tido ocorrências de alto impacto envolvendo terceiros ou subcontratados. O número é maior do que a média mundial, que ficou em 17%. O levantamento não detalhou quais os principais receios entre os executivos.

Legislação

Apesar de o estudo envolver executivos de grandes companhias, a gestão de riscos de terceiros deve ser considerada por gestores de empresas de todos os portes, avalia Fabiana.

“É necessário até para atender muitas vezes as questões obrigatórias e para conhecer com quem você está se relacionando. Independente do tamanho da empresa, se ela tem uma relação de negócios com um terceiro que é crítica nos objetivos de negócio dela, ela precisa entender quais os riscos de se associar a esse terceiro.”

No Brasil, uma das preocupações vistas em especial em empresas de menor porte envolve questões trabalhistas. A reforma da legislação ocorrida em 2017 incluiu a possibilidade de responsabilização das empresas contratantes em casos envolvendo ações de funcionários terceirizados.

“Quando você tem um empregado que não é seu, mas presta serviço para você, isso pode gerar um problema numa eventual futura ação trabalhista”, explica o advogado Bruno Avila, da BMS, especializada em compliance e risco previdenciário. “Isso acontece porque a empresa se aproveitou dessa mão de obra.”

Essa questão não atinge apenas o setor privado. Em abril, o ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou pedido conjunto dos Estados e do Distrito Federal para que o Supremo suspendesse todos os processos trabalhistas envolvendo funcionários terceirizados que atuam na administração pública.

Como forma de reduzir o risco de ações envolvendo terceiros, a BMS desenvolveu um software que monitora obrigações previdenciárias e trabalhistas. A plataforma ajuda empresas que tenham contratos ativos com terceirizados a acompanhar sua situação praticamente em tempo real. Assim, eventuais irregularidades podem ser analisadas a tempo.

“A contratante pode tomar medidas preventivas. Ela não precisar esperar o encerramento do contrato para descobrir que havia uma série de problemas e que isso gerou um passivo trabalhista”, comenta Avila. No momento, a consultoria atende mais de 700 empresas no gerenciamento de três mil terceirizadas. “Isso permite que a contratante eventualmente aplique multas, suspenda pagamentos ou faça qualquer tipo de sanção que esteja previsto em contrato (para quem não estiver em conformidade)”

Para Alex Borges, sócio de Risk Advisory da Deloitte, a gestão de riscos de terceiros é um caminho sem volta. “As organizações estão buscando manter um processo de monitoramento mais efetivo e, inclusive, independente, para assegurar que na cadeia de seus terceiros, sejam eles fornecedores ou até mesmo clientes”, avalia. “As empresas, hoje, estão sabendo mais dizer ‘não’ (para quem não segue boas práticas).”

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